TEXTOS
GEOPRÓPOLIS - BIOACÚSTICO
TEXTO CURATORIAL DA EXPOSIÇÃO REALIZADA NO COMPLEXO CULTURAL FUNARTE, NA CIDADE DE SÃO PAULO EM OUTUBRO DE 2024.
No Brasil existem cerca de 320 espécies de abelhas nativas sociais e mais de 1500 abelhas solitárias. São elas as responsáveis pela polinização das plantas e são essenciais para a nossa sobrevivência. Ameaçadas pelo desmatamento, pela redução de seus habitats naturais e pela concorrência da agressiva abelha europeia, que é exótica ao nosso território, nossas abelhas correm perigo de extinção antes mesmo de serem conhecidas por grande parte das pessoas.
“Nossa sociabilidade tem que ser repensada para além dos seres humanos, tem que incluir abelhas, tatus, baleias, golfinhos. Meus grandes mestres da vida são uma constelação de seres — humanos e não humanos”
Ailton Krenak
No capítulo intitulado Aliança Afetiva, da obra Futuro Ancestral, Ailton Krenak apresenta a ideia de afetos entre mundos não iguais, entre seres radicalmente desiguais. Assim, se faz fundamental reconhecer a intrínseca diferença entre os seres e se implicar, resultando num senso de responsabilidade e na necessidade de uma reflexão prévia à relação com esses seres. Pois ao interagir com o outro, humano ou não, temos o poder de afetar. O conceito de aliança afetiva se trata da capacidade de sentir a vida em outros seres e de se perceber passível de afetar e ser afetado e, ao mesmo tempo, experimentar a não centralidade do humano.
Nesta ocasião, o artista e meliponicultor João Machado apresenta a mostra intitulada Geoprópolis Bioacústico, fruto de mais de dez anos de pesquisa, onde ciência e arte se entrelaçam como fios de um tecido vivo. O trabalho nasce com o propósito de desafiar a divisão entre natureza e cultura, uma separação imposta pela visão eurocêntrica dominante. Ao longo da mostra, o artista propõe, em cada obra, uma interação sensível e possível, uma espécie de convite poético para ultrapassar as fronteiras que costumamos traçar entre os mundos humanos e não humanos, sugerindo que somos parte de um todo interconectado, vibrando na mesma frequência da vida. Assim, a intenção de conceber alianças afetivas interespécies se materializa por meio dos vídeos, esculturas, proposições e tapeçaria aqui presentes. Cada obra convida o público a mergulhar em reflexões profundas sobre a interdependência que une humanos e outros seres, dissolvendo as fronteiras entre arte e vida, entre cultura e natureza.
A exposição abre com a experiência sonora "Zumbido", onde mais de mil artistas se encontram; o músico Daniel Magnani, João Machado e um enxame de abelhas mandaçaia, com seus 1.500 indivíduos. A dupla humana, capta os sons do enxame, que são transformados através de distorções, reverberações e improvisos. A mesa de mixagem se torna um palco onde a vida invisível ressoa em vibrações, e o público, de olhos vendados, é transportado para o coração do enxame, numa imersão acústica sensível. A essência dessa obra continua reverberando na instalação "Arquitetura Bioacústica para Abelha Mandaçaia". Essa instalação sonora, feita de cerâmica, preserva os ecos do enxame, prolongando a experiência inicial. O som capturado durante a
performance permanece no espaço como um sussurro constante da vida em comunhão, um convite contínuo de escuta sensível desse outro não humano.
Na obra em vídeo "Casa Mirim" o artista apresenta uma pequena casa em uma área rural, cuidadosamente adaptada para que abelhas e pessoas possam coexistir. Uma metáfora poderosa: uma casa que representa o mundo, onde a coexistência e o respeito pela vida de todos seus moradores são indispensáveis. A obra nos lembra que a casa não é apenas um espaço físico, mas um conceito de cuidado, de acolhimento mútuo, onde cada ser desempenha um papel vital.
A tapeçaria "Ciranda", tecida pelo coletivo Casa do Tear Dona Mariana, de Bocaina de Minas/MG, traz para a exposição o calor da colaboração. Feita em tear mineiro de dois pedais, a obra simboliza a união. A ciranda, com seus movimentos cíclicos e coreografados, resgata a ideia de comunidade, enquanto o tear, como uma tecnologia de cuidado, nos recorda que cada fio, cada laço, é parte de uma trama maior. Em meio às outras obras de caráter tecnológico, a tapeçaria irradia um calor afetivo, uma delicada tecnologia do afeto, conectando o público às tramas sutis do cuidado, da colaboração e da vida compartilhada entre humanos e não humanos.
Por fim, o mapa em lambe-lambe é um registro das informações coletadas durante a ação coletiva "Deriva de Mapeamento de Abelhas Nativas". Este mapa, mais que uma simples cartografia, é o registro de um convite de busca pelo outro não humano. As caminhadas seguem o mesmo princípio de promover encontros entre humanos e não humanos, mas agora para além dos muros da exposição, permeando as ruas, praças e vielas da cidade. Aqui, o artista se inspira nas derivas debordianas, conduzindo o público em uma psicogeografia que revela as marcas de uma cidade que cresce, opressora, não apenas sobre os corpos humanos, mas também sobre os outros seres que nela tentam sobreviver. Cada passo é uma busca sensível por aqueles que, silenciosamente, tecem sua existência entre os vãos de um concreto que insiste em expandir.
Arasy Benitez
outubro/2024
Ficha Técnica:
Artista: João Machado
Curadora: Arasy Benitez
Educativo: Gabriela Conceição Silva
Projeto de exposição aprovado no Edital Funarte Aberta 2023
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Territórios do Zumbido reúne obras que resultam de mais de uma década de pesquisa que une arte e ciência, desenvolvida pelo artista João Machado em uma colaboração interespécies com as abelhas sem ferrão, nativas do Brasil. Insetos polinizadores — eussociais, semissociais e solitários —, esses seres desempenham um papel crucial na manutenção da biodiversidade e dos ecossistemas. O termo "eussocial" descreve o grau mais elevado de organização social de uma comunidade. A complexa organização presente na eussocialidade destes insetos desafia os paradigmas de individualismo da nossa sociedade e afirma modos de vida radicalmente cooperativos, sustentados pela interdependência. Preservar esses seres é uma urgência ecológica, ética e simbólica — com eles, temos muito que aprender sobre cuidado, coletividade e preservação da vida.
Estima-se que existam no Brasil cerca de 350 espécies de abelhas eussociais e aproximadamente 1.500 espécies semissociais e solitárias. Suas populações vêm sofrendo redução significativa por múltiplos fatores. Desde o período colonial, a introdução de espécies invasoras como a Apis mellifera — trazida pela Igreja para a produção de vela, utilizada em rituais católicos que suprimiram as cosmologias indígenas — já impactava negativamente as espécies nativas. Ao longo dos séculos, esse processo foi se agravado por formas hegemônicas de ocupação do território, o desmatamento, a urbanização desordenada e o uso intensivo de agrotóxicos.
Muitas espécies produzem mel, cera e geoprópolis — de onde se extrai o própolis — substâncias com propriedades medicinais utilizadas há séculos em práticas tradicionais de cuidado e atualmente estudadas pela ciência. Mesmo sob ameaça, essas abelhas resistem subversivas. Atravessando os limites da propriedade privada realizam seu trabalho ancestral: polinizar, sustentar ecossistemas e produzir mel, uma mercadoria com potencial de geração de renda para pequenos produtores rurais.
As abelhas se comunicam por vibrações, feromônios, dança e som, revelando um universo sensorial refinado, que escapa à percepção humana. João Machado capta a biofonia dos enxames, com microfones ultra sensíveis, e a utiliza como matéria estética. Em sua prática, essa escuta se torna também uma tentativa de reparar a cisão entre humanos e não humanos — uma ruptura que se consolidou com o avanço colonial e o paradigma especista da cultura ocidental, apagando as cosmologias nativas que reconheciam a agência da natureza.
A performance Zumbido, que inaugura a exposição, com a colaboração dos músicos Daniel Magnani e Rodrigo Netto, mixa os sons dos enxames, que são transformados através de distorções, reverberações e improvisos. A mesa de mixagem se torna um palco onde a vida invisível ressoa em vibrações, e o público, de olhos vendados, é transportado para o coração do enxame, numa imersão acústica sensível. A essência dessa obra continua reverberando na instalação Arquitetura Bioacústica, que ocupa o interior do Museu Forte Defensor Perpétuo: feita de cerâmica, preserva os ecos dos enxames, prolongando a experiência inicial. O som capturado das colmeias de espécies diferentes permanece no espaço como um sussurro constante da vida em comunhão, um convite contínuo à escuta do outro não humano.
Essa escuta não é apenas poética: encontra fundamento no campo da bioacústica, área que estuda os sons produzidos pelos seres vivos e suas variações em resposta ao ambiente. A partir da análise da biofonia dos enxames, torna-se possível estabelecer formas de comunicação com as abelhas nativas, observando alterações nos padrões sonoros que refletem mudanças no entorno. Nas ciências biológicas, destaca-se a pesquisa inédita do biólogo brasileiro Alex Otesbelgue, que identificou variações significativas nos sons emitidos por abelhas jataí expostas a agrotóxicos — sugerindo o potencial uso desses sinais como bioindicadores de contaminação ambiental. A bioacústica das abelhas nativas é um campo ainda incipiente, mas promissor para o avanço das ciências ambientais.
Assim, nesta mostra, no interior do museu, o espectador é convocado por meio da imersão sonora e da manipulação estética dos zumbidos, assim como pela obra em vídeo, projetado sobre cera, intitulado Ceroscópio, que revela imagens captadas do interior dos enxames, abrindo brechas visuais para um universo usualmente invisível. Já no jardim, a exposição se prolonga em formas escultóricas que evocam a presença viva das abelhas. Entre elas, destaca-se Arquitetura para Abelha Jataí III, escultura de cerâmica concebida como morada para um enxame da espécie jataí, que será ali instalado pelo artista, transformando a obra em habitat e gesto de coautoria entre humano e abelha. Fora do museu, essa proposição se desdobra em gesto caminhante, transformando-se em metodologia de presença e investigação do território. João Machado propõe, assim, uma arte-ação que ultrapassa os limites do espaço expositivo e se ancora no corpo em movimento no espaço urbano, em experiências coletivas ou individuais de observação sensível e mapeamento de abelhas nativas. É nesse contexto que se inscrevem as Derivas de Mapeamento de Abelhas Nativas, inspiradas nas derivas debordianas — prática de deslocamento que explora a carga afetiva, simbólica e sensorial do espaço urbano — promovendo encontros improváveis entre humanos e abelhas, entre cidade e floresta.
Arasy Benítez
Julho/2025
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Geoprópolis
Uruçu, Mandaçaia, Jataí,
Manduri, Bugia, Borá,
Tubuna, Irapuã, Iraí.
De nomes sonoros, elas se comunicam pela dança. Na entrada de seus ninhos, são suas esculturas complexas esculpidas em cera que as singularizam. Elas, as abelhas-sem-ferrão, são o desejo de existência de Geoprópolis, mistura feita de terra e própolis, que dá nome à exposição individual de João Machado e acaba de pousar aqui no Bananal Arte e Cultura Contemporânea.
Um pouso que quer aterrar, mas também quer soprar a poeira da velha separação absoluta, que não há e nunca houve, entre as florestas, as plantas, as flores, as folhas, as pedras, as montanhas, o solo, a água, o clima, todos os outros animais e povos deste território. Uma balela criada e imposta irresponsavelmente pelo ocidente, que se transformou em fundamento, como é possível notar pelas tentativas incessantes de matar a si e a tudo aquilo que nomearam como “os outros”. As abelhas indígenas, nativas, ou sem ferrão, atadas à produção da vida, nos fazem lembrar que estamos vivas/es/os e envolvidas/es/os nisso tudo. Não estamos fora, pois o fora não existe: “do lado também é dentro” como nos lembra, sempre que pode, Adelaide de Estorvo.
Mais que uma exposição de arte, Geopropolis - como definiu certa feita João Machado: “é uma carta de amor às abelhas sem ferrão”. Os trabalhos instalados no Bananal Arte e Cultura Contemporânea correspondem a mais de dez anos de pesquisa e defesa das abelhas sem ferrão. A cera, o mel e o própolis são base imagética e matérica da construção estética de Machado e
dão corpo às suas produções. Estão aqui presentes nas obras “Terra em defesa da cidade” (2019) e “Bandeiras de seda” (2023). A primeira é feita com geoprópolis, caixas de abelha, objetos em latão, telas de vídeo e cera; já na segunda, a cera aparece permeando o processo de pintura em seda, realizado em parceria com o coletivo Ateliê Vivo. Além desses estandartes, há outras duas séries de bandeiras em defesa das abelhas. Em todas elas vemos manchas centrais: são desenhos dos territórios brasileiros nos quais Machado suprimiu as fronteiras estaduais e reorganizou conforme a presença de cada
espécie de abelha, cujos nomes vêm marcados no topo de cada bandeira. Por fim, a instalação “Bombas de sementes” (2023)
feitas com terra, argila e sementes de plantas nativas. Livres para uso público, nos instigam ao envolvimento, ressoando o quilombola Nego Bispo dependem da nossa ação de arremessá-las para que elas possam germinar. Geoprópolis é convite a uma dança, cujos gestos aparecerão nos movimentos de nossos braços, dedos, pernas e pescoços ao lançarmos as bombas de sementes. Ao longo das três derivas que farão parte da programação educativo-cultural, nos abaixaremos, nos agacharemos, nos esticaremos, nos contorceremos e nos aproximaremos para olhar nos ocos das árvores, nas fendas dos muros, nas cavidades das paredes, nos postes, ou ainda, no chão.
É o que as abelhas sem ferrão fazem e nos levam a fazer: rastrear outra cidade sobre e apesar de todo metal, concreto e asfalto: insistir em fazer floresta.
texto de Khadyg Fares, agosto de 2023.
Curadoria de Arasy Benitez e Khadyg Fares
Geoprópolis
Polis pró geo
Para o caribenho Malcom Ferdinand, autor do livro "Uma ecologia decolonial", a destruição do meio ambiente e o legado colonial racista estão inextricavelmente ligados. A vida dos povos nativos, dos escravizados e o ecossistema como um todo foram menosprezados durante o período de exploração colonial que deu origem à modernidade, resultando na normalização das desigualdades decorrentes da divisão social do trabalho, no processo de acumulação primitiva do capital e o subsequente crescimento econômico desenfreado. O projeto de alienação cultural colonial, que teve como principal parceira a catequese católica e mais tarde o cristianismo, instalaram em nosso território, junto ao racismo e o patriarcado, o especismo, criando assim as condições que possibilitam o ataque contínuo ao meio ambiente.
Há mais de 10 anos, João Machado pesquisa as abelhas nativas e desenvolve trabalhos junto com elas em seu atelier localizado em Bocaina de Minas, se colocando como co-criador num exercício de abandono do especismo fundado neste território junto com o "descobrimento" do "Brasil". E se o nome deste território fosse outro? Qual seria a dimensão e quais as fronteiras de um território que não tenha sido desenhado pelo arranjo do capital? E se, como a das abelhas, a nossa sociedade fosse matriarcal? São alguns dos questionamentos de Geoprópolis. A única certeza é que o legado colonial
destruiu a polis pró geo que aqui existiu e é nossa responsabilidade agir em outra direção, sempre trazendo à luz as violências que o capital suscita.
O ato de caminhar coletivamente pela cidade para achar abelhas nativas é a principal proposta de Geoprópolis , onde o encontro é fundamental, possibilitando a troca de ideias no espaço público durante o percurso. É uma reunião de pessoas para o inútil, um convite para o lúdico desinteressado. É um chamado para andar pela cidade que lembra as derivas debordianas, mas que se diferencia, pois a preocupação não é exatamente com o efeito daquilo presente na geografia urbana sobre a psique humana, mas em como somos afetados pela ausência, pela destruição e o apagamento. Enquanto a deriva
situacionista faz do ato de caminhar um método de apreensão dos afetos urbanos, na tentativa de estudar os efeitos do ambiente urbano no estado psíquico e emocional das pessoas que a praticam, a proposta de Geoprópolis é refletir e dialogar sobre os efeitos emocionais da quase ausência de natureza e das vidas que são constantemente inferiorizadas nesse processo, observado e percebendo como esses insetos sociais sobrevivem, assim como nós, apesar do projeto do capital.
texto de Arasy Benítez, agosto 2023
Curadoria Arasy Benítez e Khadyg Fares
OBRAS
Dança das Abelhas (2019)
Mandaçaia - Série Bandeiras (2023)
Tataíra - Série Bandeiras (2023)
Boca de Sapo - Série Bandeiras (2023)
Uruçu - Série Bandeiras (2023)
Arapuá - Série Bandeiras (2023)
Jandaíra - Série Bandeiras (2023)
Tiúba - Série Bandeiras (2023)
Mandaguarí - Série Bandeiras (2023)
Mirim - Série Bandeiras (2023)
Mondury - Série Bandeiras (2023)
Guaraipo - Série Bandeiras (2023)
Borá - Série Bandeiras (2023)
Uruçu - Série Bandeiras (2023)
Bombas de Sementes (2023)
Terra em Defesa da Cidade (2019)
Mapa 2 - Barra Funda/SP (2023)
FICHA TÉCNICA DA EXPOSIÇÃO
Artista: João Machado
Curadoria: Arasy Benítez Khadyg Fares
Educativo: Gabriela Conceição Silva
Assessoria de imprensa: Marmiroli Comunicação
Artistas e convidades: Ateliê Vivo, Karaí Tatande, João Mário
Machado, Giba Santana, Balé Popular Cordão da Terra.
AGRADECIMENTOS:
Bananal Arte e Cultura Contemporânea, Eliane Carvalho, Emmy
Tavares, Ana Soler, Bruna Amaro, Tome Gilberto, Renata
Monteiro Siqueira, Aldeia Guarani Rio Silveira, Ana Dandara
Miranda.