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Parece contraditório juntar as palavras abelhas e solitárias. Para nós, abelhas são sinônimo de coletividade, porém 80% das espécies de abelhas que existem no mundo são solitárias. Essas abelhas não produzem mel e nem vivem em grandes colônias centralizadas em torno de uma rainha. Dependendo da espécie, uma abelha solitária faz seu ninho no chão, na cavidade de uma árvore ou em buraquinhos que ela mesma cava ou encontra. Algumas revestem suas estreitas moradas com resinas, folhas e até mesmo pétalas de flores. Elas se alimentam de néctar, pólen e algumas desenvolveram a técnica de extração de óleos vegetais perfumosos. As abelhas solitárias estão por aqui desde o período cretáceo, há 120 milhões de anos.


Só existem florestas porque existem abelhas e muitas espécies de plantas dependem exclusivamente das abelhas solitárias como é o caso do maracujá, por exemplo, que só consegue ser polinizado naturalmente pelas abelhas do gênero Bombus, popularmente conhecidas como Mamangava. As abelhas solitárias nativas do Brasil são seres fundamentais para o nosso ecossistema e encontram grande adversidade por conta da nossa ação predatória no mundo. As áreas rurais devastadas pelo desmatamento, a monocultura e o uso de agrotóxicos são uma real ameaça para sua existência. Nas cidades o cenário é ainda pior, as abelhas encontram escassez de água e alimento, ademais sofrem com a poluição e a falta de espaços para fazer seus ninhos. Os prédios que são erguidos diariamente são torres de concreto e vidro, e oferecem poucas oportunidades de nidificação. Os parques nas cidades ainda são um refúgio, embora muitos passam por dedetizações periódicas que dizimam centenas, senão milhares de insetos benéficos, entre eles as abelhas solitárias.


A nossa arquitetura é indissociável da maneira como imaginamos o mundo enquanto sociedade. Ela não só é um reflexo daquilo que pensamos mas também condiciona a nossa maneira de pensar e existir no mundo num constante fluxo retroalimentado. Não só de concreto, vergalhões e aço se faz um prédio, ele é essencialmente feito de ethos. Muitos são verdadeiros monumentos da nossa capacidade, mas sob a ótica da integração com outras espécies, revelam egoísmo e solidão, talvez a pior das solidões, a ignorância.


A proposta desta série é imaginar uma coleção de arquiteturas desenhadas para abrigar abelhas solitárias e com isso propor novos espaços de integração e interação entre espécies. O quê o convívio com essas abelhas poderia despertar em nós como sociedade? Acredito que muitas coisas benéficas poderiam ser desencadeadas se seguirmos o caminho de uma simples abelha solitária. As abelhas solitárias que poderíamos abrigar nos muros das nossas construções levariam naturalmente à consciência de termos mais plantas disponíveis para elas, o que criaria uma nova maneira de enxergar a arborização urbana e também o manejo dos parques.


Como seria uma cidade rica se a riqueza fosse também mensurada em biodiversidade?


João Machado.

São Paulo, dezembro 2023

© 2026 João MAchado

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