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TERRAFIAS – Práticas Regenerativas e Processos Estéticos - João Machado
A exposição TERRAFIAS – Práticas Regenerativas e Processos Estéticos que fica na Galeria Respiro entre abril e agosto de 2025 representa um arco estético de João Machado. Procura-se apresentar o aspecto ativo da manifestação artística e da composição do trabalho do artista para além da questão visual; mais ainda para a questão sensível como um todo, onde a estética é o despertar de múltiplos sentidos, e é justamente essa prática multidisciplinar que interessa ao João.
Espero que aqueles que entrem na galeria possam ter esse impacto visual, mas também com aquilo que realmente move a manifestação artística proposta, qual seja: a arte aqui precisa vincular-se à natureza de maneira regenerativa em práticas e processos ancestrais para estimular reflexões sobre preservação e sustentabilidade. Com esse pensamento, pode-se ir para um campo de reação que alcança uma comunhão ainda maior das nossas sensações. Uma afinidade entre o ser humano e o ambiente que o cerca na Mantiqueira.
Existe algo de Cildo Meireles nessas obras que fica evidente: elas precisam ir a campo para de fato se materializarem, ou seja, sua completude residirá no ato de permanência onde se instalam fora desse espaço expositivo da galeria. Por isso mesmo, os vídeos que estão em exibição têm extrema relevância. Temos, de um lado, Rafia – registro do processo de regeneração – e, de outro, Partituras Paisagens – evocação poético-musical do registro visual da cordilheira. Aqui João vai focar em práticas antepassadas e realçá-las nas peças apresentadas para catalisar o renascimento do solo, algo essencial no contemporâneo.
Existe um tanto de leitura de natureza que pode ser de Manoel de Barros ou de Wallace Stevens: se o primeiro recorre à natureza para conectar o ser humano a seus sentidos, o último transforma a montanha, o lar, a realidade na sua arte em si:
E assim foi, palavra por palavra,
O poema que ficou no lugar da montanha. (Wallace Stevens)
Terrafias é uma palavra criada pelo artista na junção de Terra + Rafiar (guarnecer ou entretecer de fios): guardar e fazer uma sutura na terra. Assim, as suturas são feitas nas partes mais feridas dos morros, onde já não há quase vida, onde gado amassa e comprime, e a chuva cria valas que se assemelham a necroses de terra. É nessas necroses que o artista insere seus curativos; aqui representados pela sua confecção desassociada em Terrafias n. 4, onde os componentes – sementes, terra, folhas secas e gaze hospitalar – são apresentados em recipientes que lembram aqueles que carregam instrumentos cirúrgicos.
No mesmo sentido, cada um dos Poleiros dispostos é um curativo, para serem inseridos onde não existem árvores que possibilitem aos pássaros semear a terra; espécies de irrigadores alados de sementes. Basta olharmos os morros que cercam as nossas rodovias e compreender essa dificuldade de semeação. São todos processos de vida, de criar vida, de gerar, de semear, numa verdadeira ressurreição.
Todas as obras são espécies de catalisadores artificiais de regeneração, elaboradas delicadamente pelo João em sua ampla experiência artística e estudo científico-botânico. Trata-se de uma percepção reversa que começou na pesquisa das plantas, caminha pelas abelhas e, hoje, encontra-se no fechamento desse arco criativo-ecológico: Terrafias. Aengenhosidade delicada cria os Coletores; componentes de cerâmica que carregam uma mistura de arroz, açúcar e gaze para coletar fungos essenciais no desenvolvimento saudável da floresta. Mata que, uma vez recuperada e ainda não totalmente madura, deverá ser constantemente polinizada.
Surgem, então, as abelhas: imprescindíveis e que só conseguem sobreviver em um meio ambiente que esteja realmente se desenvolvendo. Criaturas que têm uma identidade coletiva visualmente caracterizada pela entrada de suas colmeias e que podemos admirar nos desenhos que João Machado nos apresenta na sua série Pitos. Vemos, ainda, as Arquiteturas para Abelhas Nativas, construções em cerâmica que servem para auxiliá-las em espaços pré-fabricados – pois raros são os grandes ocos de árvores onde deveriam naturalmente habitar. Essas construções têm em sua condição, e na medida em que se ativam, uma relação interespécie, uma vez que somente se consolidam de fato quando as abelhas as transformam em seu próprio habitat.
De trabalhar com essa maravilhosa possibilidade que as artes plásticas oferecem,
de criar para cada nova ideia uma nova linguagem para expressá-la. Trabalhar
sempre com essa possibilidade de transgressão ao nível do real. Quer dizer, fazer
trabalhos que não existam simplesmente no espaço consentido, consagrado,
sagrado. Que não aconteçam simplesmente ao nível de uma tela, de uma
superfície, de uma representação. Não mais trabalhar com a metáfora da pólvora
– trabalhar com a pólvora mesmo. (Cildo Meireles)
Texto por Guilherme Pinheiro, abril 2025.