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Zumbido

Por Lola Fabres


Em meio ao ruído, a escuta atenta capta uma diversidade de timbres e rarefações que emerge da vibração registrada por João Machado em sua convivência com abelhas nativas locais. Mais do que uma homenagem, tal gesto reinscreve esses seres na história ambiental e colonial brasileira, lembrando um equilíbrio há muito tempo rompido pela colonização, pela introdução de espécies exógenas e pelos processos de devastação ambiental. Diante da ameaça de desaparecimento, o artista propõe que suas obras atuem como arquiteturas de abrigo – dispositivos concebidos para ouvir, acolher e proteger aqueles que se encontram em risco.


Exposição individual que reúne parte de sua investigação sobre os modos de vida e resistência das abelhas sem ferrão, Zumbido convida a escutar a paisagem sonora de um mundo miúdo, vibrátil e coletivo, evocando um olhar sobre as lógicas construtivas e os regimes de comunicação que sustentam sua existência. É nesse cruzamento que as particularidades sonoras e formais das peças em exibição ganham espessura. Inspiradas em distintos modos de nidificação, as variações morfológicas das esculturas de João Machado revelam que, embora inscritas numa mesma condição de ameaça, cada espécie desenha o mundo à sua maneira – com sua própria disposição, com seus próprios pilares de cerume, com seus próprios modos de abertura, de caixa ou cavidade e com sua vibração singular.


Mais grave ou mais agudo, mais contínuo ou entrecortado, cada casa entoa um regime de zumbido que funde sonoridade e entorno em uma mesma ecologia relacional. Assim, dispostos em conjunto no espaço expositivo, esses diferentes rumores compõem aquilo que o artista descreve como “um coral de abelhas”, uma polifonia modulada pelo ambiente, cuja melodia se faz na constância da vibração. Um pranto coletivo – um canto de resistência em nome da vida frente às violências que a ameaçam.


Em meio ao ruído, ouve-se uma diversidade de timbres que emerge da vibração captada pelo artista em sua convivência com abelhas locais. Exposição que reúne parte de sua pesquisa sobre os modos de vida das abelhas sem ferrão, Zumbido convida a escutar a paisagem sonora de um mundo miúdo, vibrátil e coletivo, evocando suas lógicas construtivas e regimes de comunicação.


Nessas arquiteturas de abrigo, concebidas para acolher existências em risco, cada espécie desenha o mundo à sua maneira, com sua própria disposição e vibração singulares. Do grave ao agudo e ressonâncias distintas, as peças entoam regimes de zumbidos que funde som e entorno em uma mesma ecologia relacional — rumores que, ao habitarem o mesmo espaço, articulam um “coral de abelhas” – uma polifonia cuja melodia reside na constância da vibração: um pranto coletivo, um canto de resistência em nome de vidas sob ameaça.


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Lola Fabres é curadora e doutora em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo (ECA-USP) e pós-doutoranda em Estudos Contemporâneos da Arte pela Universidade Fluminense (UFF). Atualmente, investiga as interseções entre arte, território e meio ambiente, com ênfase em práticas artísticas de caráter dialógico e colaborativo.

© 2026 João MAchado

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