TEXTOS
Derivas de mapeamento de abelhas nativas na cidade
por Jéssica Andrade e Ricardo Silva, do estúdio Ceda el paso
Não há como iniciar qualquer tipo de escrita, ou melhor dizendo, de caminho feito de palavras sem que estas reajam aos tremores radicais do nosso tempo. A crise climática, os danos causados pelo consumo excessivo dos recursos naturais, a crescente concentração de gases do efeito estufa colocam, em termos científicos, o que o saber ancestral já havia alertado há tempos. Os humanos estão mudando a Terra em uma velocidade tamanha que os cientistas denominaram estes efeitos trágicos como a era do antropoceno. A estes efeitos somam-se outros, tão trágicos quanto, dentre eles os fluxos migratórios, deslocamentos forçados, conflitos bélicos, desestabilização econômica e política em esfera internacional, acentuação das desigualdades [...]. O “global” já não abarca tamanha complexidade, talvez o termo que caiba agora seja “a nível planetário”. É preciso agigantar a escala face à real ameaça de extinção da espécie humana. Vivemos tempos nunca antes vividos e não é possível excluir as cidades dessa complexa operação matemática que tem sido resistir no planeta Terra, tendo em vista que quase sessenta por cento da população do planeta vive em cidades.
E tampouco podemos compreender a presença da humanidade dentro dessa escala sem levar em consideração a posição inquestionável de nossa corporalidade inserida nessa soma de escalas de presença, atuação e intervenção. Com nossos corpos presenciamos e presenciaremos, de uma forma ou de outra, a vida concreta no planeta, na cidade-planeta. Uma experiência corporal que convoca, que convida, que investe um corpo caminhante. Uma experiência caminhante que explicita a presença inequívoca, a atuação inevitável, a transformação fenomenológica. Um corpo que caminha está ali, sem dúvida. Mas com muitas dúvidas. Porque para caminhar é preciso ter a falta, a ausência, a vontade de encontrar o que não se tem. Caminhar para transformar a paisagem e a si mesmo. E aqui nesse projeto – o Geoprópolis – o convite é esse. Caminhar pela cidade para construir outra paisagem, outro indivíduo, outra sociedade.
Por isso, em momentos deste texto a relação entre a deriva, as abelhas e a cidade, três elementos que dão forma à tarefa poética, ecológica, subversiva e política norteada através do desejo de mapear as abelhas na paisagem urbana, se revelará. Mas primeiro, voltemos à cidade. Ailton Krenak e Davi Kopenawa, na série Cidades Impossíveis (2021), articulam duas ideias sobre a noção de cidade, não em termos teóricos, mas na perspectiva de mobilizar este assentamento humano como uma criação do homem branco, portanto, reflexo de um constructo ocidental, eurocêntrico, colonial, geométrico, racional, funcional, hierárquico e que é tomado como apartado de outras cosmologias.
Para Krenak, a cidade é um paradoxo, tem um poder de atração por ser um sorvedouro de energia e um lugar que atrai as pessoas, exerce uma cultura predatória e obcecada, na qual a Terra converte-se em uma plataforma para o extrativismo. Krenak ainda afirma que somos ruidosos e alerta que não há uma separação entre a natureza, o meio ambiente e os humanos: “Nós somos a natureza”. Kopenawa complementa que “o homem da cidade não quer saber da queda do céu”. Neste mesmo documentário uma representante das Nações Unidas, ao discorrer sobre a ODS Cidades e Comunidades Sustentáveis, diz: “[...] a batalha pelo desenvolvimento sustentável vai ser vencida ou perdida nas cidades [...]” (2021); mas o que as abelhas têm a nos ensinar? Faz sentido falar de uma forma de vida tão pequena quando a métrica dos obstáculos e desafios humanos na Terra desestabiliza o planeta? O projeto Geoprópolis toca em muitas temáticas e, sem sombra de dúvida, a deriva como estratégia de mapeamento das abelhas constitui um foco estrutural, ao passo que também apresenta uma cadência rítmica de possibilidades de leituras, de ganchos simbólicos e ecopoéticos de modos de vida no urbano e para além dele.
As leituras que se realizam e vibram, mesmo após o fim dos percursos, dentro de muitos caminhantes ganham a forma de uma fagulha de invenção que, uma vez que atravessa o corpo e o espírito daquele que caminha, inicia uma busca descompromissada por associações, criações e descentramentos. As derivas à procura das abelhas, o encontro e espanto do vivente urbano e caminhante ao se deparar com a inteligência da natureza e a escolha daquela forma de vida por uma localidade tida como inconveniente, degradada, barulhenta, não passível de habitar, fricciona maneiras outras de construção de vivências, de possibilidades. A paisagem até então subordinada à verticalização, ao adensamento, aos vestígios de consumo e de produção é ocupada por abelhas. A poética da situação não deve negligenciar os conflitos e a disputa, mas abre uma fenda nova de sentidos para o território, mas há que caminhar e observar para compreender. Quando um coletivo de abelhas cria uma colmeia em uma rua de baixo interesse imobiliário e de investimento, há uma contradição entre a relação humana para com a posse e a propriedade e este outro modo de estar na Terra. Justamente, esta experiência de caminhar e observar é um potente dispositivo para acionar a reflexão de como a relação do ser humano com a natureza tem mudado.
Segundo uma matéria veiculada em 2023 via Portal do Butantã, as abelhas vivem no planeta Terra há cerca de 125 milhões de anos e possuem uma complexa organização social. A capacidade que elas têm de viver em colônia fez com que se adaptassem a diversos ambientes ao redor do mundo. Ao pararmos e observarmos indivíduos e/ou coletivos que experienciam realidades extremas, o movimento/deslocamento parece fundar suas lógicas de sobrevivência. Mudar de lugar, de território, de país [...] mover-se e sobreviver podem emanar algo em comum. Entretanto, para mover-se, seja sob a pressão imposta de ter esta condição de deslocamento como a única saída para garantir a vida, seja colocando-se por inteiro na experiência errática do atravessamento de territórios em busca de um lugar outro, é preciso assumir o corpo em deslocamento, em transformação, transmutação. Deslocar-se para sobreviver, para se (re)constituir.
Mesmo aqui nessa proposta, quando todos nos dedicamos à procura de colmeias urbanas, em estado errante, estamos buscando outras sobrevivências – nossas e das abelhas. E isso requer, como as derivas solicitam, doses de coragem. O leitor não deve ater-se aqui aos exemplos extremos, mas à fundamental importância que tem o mover-se para se aproximar de diferentes alteridades e outras formas de vida. Uma aproximação que se dá apenas ao caminhar pela cidade.Imagine uma lupa, apresentada ao observador desavisado. Com essa lupa seria possível mirar algumas escalas: Cidade, Ruas, Edifício, Porta. Essa aproximação, essa compreensão das escalas que se apequenam ao observador, são vislumbradas apenas pelo caminhante. De um avião, isso não é possível. De um automóvel, isso não é possível. Só ao caminhar. E esse observar reduzindo as escalas ao caminhar só se amplifica quando compreendemos o interesse do caminhante observador. Ao caminhar conseguimos sair da escala da cidade e mergulhar na escala das pequenas marcas, sutis vestígios, detalhes de outras presenças.
Só caminhando podemos perceber os pequenos detalhes, as miudezas, as insignificâncias, as desimportâncias (que tanto desejava Manoel de Barros). Caminhamos necessariamente em outra velocidade. Ou melhor, em outra lentidão. Contra todas as velocidades, podemos nos colocar em marcha em extrema lentidão. Um estado que nos permite sair daquela escala de Cidade e perceber outras presenças. É possível ver diferente, ver outras coisas. Coisas que certamente estão lá sem que se percebam. Invisíveis à velocidade, visíveis à lentidão. Perceptíveis aos olhares atentos e curiosos de quem quer ver. Caminhando lentamente percebemos. Um suave zunido, uma sutil saliência, leves movimentações no ar… sim, caminhando lentamente podemos perceber a presença delas na cidade. As abelhas estão lá para os caminhantes.
Aquele que caminha, que deriva, que faz suas errâncias na cidade não deve perder de vista uma mirada etnográfica da qual os antropólogos já estão familiarizados. Para José Guilherme Magnani é preciso contrabalancear as observações entre as escalas de perto e de dentro e de fora e de longe (Magnani, 2002). No entanto, esta dança com passos alternados entre tais escalas não se configura em um cuidado ou atenção apenas limitados aos antropólogos. Artistas, poetas, escritores, biólogos, geógrafos [...] todos devem considerar em seus feitos e produção a multiescalaridade do estar vivo.Em sua tarefa poética, ecológica, subversiva e política (reforçamos), o projeto Geoprópolis, ao reunir pessoas para o exercício da deriva em busca das colmeias urbanas, pratica e ensina, de forma simultânea e através de um olhar atento – de perto e de dentro – que é possível ruir generalizações e totalidades que se forjam por meio de uma perspectiva do fora e do longe. O caos urbano, a fragmentação, a individualização cede passagem para o encantamento do encontro com outras formas de vida em lugares não previstos. Desdobram-se então novas especulações imaginárias em torno do habitar, da convivência política nos espaços, da força coletiva. A fronteira entre noções estáveis começa a se deslocar ainda durante o percurso, aqueles que caminham experienciam a novidade de um novo circuito – o das abelhas e de suas colmeias. A deriva termina, mas o aprendizado do olhar atento às miudezas persiste. As abelhas convivem com a cidade. Envolvem a cidade em suas práticas coletivas de existência.
conviver, com viver
derivar com as abelhas
aprender com elas, caminhar em busca delas
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Jéssica Andrade é mestranda no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo, coordenadora do grupo de pesquisa NauCidades, vinculado ao Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana (LabNAU-USP), e Ricardo Luis Silva, professor doutor em Leituras Urbanas, leciona no Centro Universitário SENAC. Juntos conduzem o Estúdio Ceda el Paso, espaço no centro da cidade de São Paulo dedicado a temas urbanos, costurando de forma transdisciplinar antropologia, arquitetura, fotografia e leituras da cidade com o caminhar.