TEXTOS
GEOPRÓPOLIS - ARQUITETURAS PARA ABELHAS - JOÃO MACHADO
“Nossa sociabilidade tem que ser repensada para além
dos seres humanos, tem que incluir abelhas, tatus,
baleias, golfinhos. Meus grandes mestres da vida são
uma constelação de seres — humanos e não humanos”
Ailton Krenak
No capítulo intitulado Aliança Afetiva, da obra Futuro Ancestral, Ailton Krenak apresenta a ideia de afetos entre mundos não iguais, entre seres radicalmente desiguais. Reconhecer a intrínseca diferença entre os seres e se implicar, resultando num senso de responsabilidade e na necessidade de uma reflexão prévia à relação com esses seres. Pois ao interagir com o outro, humano ou não, temos o poder de afetar. A aliança afetiva trata-se de sentir a vida em outros seres e de se perceber passível de afetar e ser afetado e, ao mesmo tempo, experimentar a não centralidade do humano.
O artista João Machado tenta conceber alianças afetivas em várias situações de sua prática artística. Seja na criação das formas das esculturas em cerâmica, ou por exemplo, no uso do própolis sobre o papel que revela formas arredondadas e ocas, como se estivesse retornando a sua forma de origem quando aquela resina fazia parte do corpo/árvore. O artista usa essas “manchas” de própolis sobre o papel, como um construtor fazendo uso de uma planta baixa antes de erguer a construção. Depois de pronta, as abelhas habitam essas casas e são elas quem finalizam a obra, construindo a entrada em cerume ou geoprópolis, termo que dá nome à exposição, e que é o mesmo material que deu origem aos desenhos.
Nesta exposição estão reunidas esculturas, desenhos, obras gráficas, um vídeo e atividades educativas em torno do tema principal da pesquisa e militância do artista, as abelhas nativas do Brasil. Em nosso território habitam cerca de 320 espécies de abelhas nativas sociais e mais de 1500 abelhas solitárias. São elas as responsáveis pela polinização das plantas e são essenciais para a nossa sobrevivência. Ameaçadas pelo desmatamento, pela redução de seus habitats naturais e pela concorrência da agressiva abelha europeia, que é exótica ao nosso território, nossas abelhas correm perigo de extinção antes mesmo de serem conhecidas por grande parte das pessoas.
O trabalho de João Machado é um convite, não somente ao conhecimento desses pequenos seres tão importantes, mas principalmente um convite para o convívio, na produção dessas alianças afetivas. No vídeo “Casa Mirim”, João apresenta a construção de uma casa/obra onde esse convívio se dá no seu sentido mais literal. “Casa Mirim” é uma
pequena casa numa área rural adaptada para abrigar humanos e abelhas.
Essa ideia de convívio entre humanos e abelhas, é trazida não somente para pensar o ambiente rural, mas também para pensar a cidade. Na série “Arquitetura para abelhas solitárias” João produz imagens (com ajuda de inteligência artificial) para imaginar uma cidade feita de prédios cobertos de tubos cerâmicos, idealizando moradias que abelhas e humanos poderiam compartilhar. Essa utopia de uma cidade concebida para humanos e abelhas é uma maneira de subverter a hierarquia falida do antropoceno e estimular uma nova maneira de se relacionar com outras espécies e também entre nós.
Apesar da hostilidade das cidades com a natureza, as abelhas resistem. Através de caminhadas coletivas, há dois anos João vem localizando, identificando e mapeando abelhas nativas que sobrevivem na cidade de São Paulo. Essas derivas de mapeamento são uma oportunidade de trazer para a consciência a existência desse outro não humano na cidade, observar como fazem para subsistir à forma como nós o afetamos e assim pensar sobre a maneira como, nós humanos, podemos passar a afetar de maneira positiva esses corpos não humanos que são fundamentais para a nossa vida.